quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Crítica | Ela: Romance em um um futuro não muito distante

por Dáphine Ponte

Spike Jonze iniciou sua carreira como diretor de videoclipes de artistas como Björk, The Chemical Brothers e Yeah Yeah Yeahs. Estreou na direção em 1999 com a comédia incomum Quero ser John Malkovich, que conta a história de um homem que entra na mente de John Malkovich por quinze minutos, podendo ver o mundo com os olhos do ator. 

A tecnologia está cada vez mais presente no nosso cotidiano. Desde a invenção dos computadores pessoais a smartphones com aplicativos e gadgets que, praticamente, fazem de um tudo com um toque ou reconhecimento de voz. Temos como exemplo o Siri, aplicativo do iOS que usa processamento de linguagem natural para responder perguntas, fazer recomendações, e executar ações. Como se fosse uma secretária em seu smartphone auxiliando as pessoas em seus compromissos em tempo integral. Agora imaginem se desenvolvessem um sistema operacional com inteligência artificial e conversasse com você como se fosse uma pessoa, disposta a resolver seus problemas e quem sabe, ter um relacionamento amigável?

Em Ela (Her, 2013) isso é possível. A trama se passa em um futuro não muito distante onde a tecnologia está em toda parte. O protagonista, o escritor Theodore (Joaquin Phoenix, O mestre) trabalha em um serviço de cartas escritas à mão. Veja que as pessoas não quiseram acabar com o velho hábito de mandar cartas uns aos outros, mas pagam para outras pessoas escreverem, fazendo com que se alarguem ainda mais as distâncias. Recursos feitos no computador como apagar arquivos e corrigir palavras são realizados por reconhecimento de voz. Theodore é conhecido em seu trabalho por escrever lindas cartas e ter muita sensibilidade. Apesar disto, Theodore é um homem solitário e infeliz que se separou recentemente da esposa (Rooney Mara, Terapia de Risco). Ele passa os dias em sua casa jogando videogame em que um dos personagens é dublado pelo diretor, Spike Jonze, e fazendo sexo virtual em salas de bate-papo.

Theodore tem um casal de amigos, Charles e Amy, interpretados por Matthew Letscher e Amy Adams, respectivamente. Seus únicos amigos, aliás. Amy trabalha criando jogos e quando tem tempo, se dedica a um documentário. De início, percebemos que o casal não parece estar bem no relacionamento. Em uma cena em que Amy mostra uma das partes de seu documentário, Charles diz o que é melhor para ela fazer e os dois começam a brigar.

Um dia, o escritor vê a propaganda de um novo sistema operacional, o OS 1, que possui inteligência artificial, fazendo com que se adapte ao seu usuário. O SO de Theodore tem voz feminina chamada Samantha (Scarlett Johansson, Como Não Perder Essa Mulher) que, inicialmente, organiza e-mails e corrige erros nas cartas que Theodore escreve. Aos poucos, Theodore desenvolve uma relação de amizade com Samantha, conversando sobre outras coisas, como as impressões dela sobre o mundo ao invés de apenas dizer o que ele tem de fazer. 


Em uma noite, Theodore está chateado com o encontro que não deu certo. A mulher com quem ele saiu (Olivia Wilde) já demonstrou o interesse por um relacionamento mais duradouro e fez cobranças. Isso no primeiro encontro. Samantha confessa a Theodore que queria estar com ele. A partir daí, os dois começam a ter um relacionamento. Um relacionamento diferente, mas continua sendo um relacionamento com as cobranças, as preocupações, os medos, os planos e as falhas de um relacionamento entre pessoas.

A fotografia do filme ficou por conta do alemão Hoyte van Hoytema que utilizou cores diferentes em diversas situações. Tons pasteis são vistos em cenas em que Theodore está com Samantha conversando na rua ou no campo e tons de cinza e azul-escuro quando Theodore está em sua rotina solitária ou conversando com Samantha antes de dormir.

Assisti a esse filme achando que o protagonista iria se apaixonar apenas pela voz do sistema operacional como vi em uma matéria em que pessoas vão no Google Tradutor, digitam a frase “Eu te amo”, por exemplo, e passam a ouvir várias vezes com a conhecida voz do serviço de tradução. Ela torna tudo isso mais complexo quando mostra um sistema operacional sem face ou corpo capaz de sentir e expor seus sentimentos, chegando a se apaixonar por um homem. Acredito que Scarlett Johansson fazendo a voz de Samantha esteja em sua melhor “atuação”. Sua voz é tão marcante que faz com que pensem que Samantha está ao lado de Theodore, como ela comenta em uma cena.

O filme também mostra como a tecnologia une ainda mais as pessoas ao mesmo tempo que as afasta. Podemos ver várias pessoas conversando com seus sistemas operacionais juntas em um mesmo lugar, mas isoladas em seus mundos particulares. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Crítica | O Lobo de Wall Street: Eu compraria aquela caneta

por Victor Hugo Furtado

Imprimindo um ritmo raro de diálogos memoráveis, O Lobo de Wall Street se configura como um dos melhores filmes da carreira do brilhante cineasta Martin Scorsese (que dirá da dobradinha com DiCaprio), mostrando no longa de 2013, que até escorrega com A Invenção de Hugo Cabret, mas tem toda a capacidade, apoio e vontade de continuar sendo um dos maiores cineastas de todos os tempos em sua plena forma.

Durante seis meses, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) trabalhou duro em uma corretora de Wall Street, seguindo os ensinamentos de seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey).

Quando finalmente consegue ser contratado como corretor, acontece o Black Monday, que faz com que as bolsas de vários países caiam repentinamente. Sem emprego e com uma ambição fora do padrão que se pode considerar normal, ele acaba trabalhando para uma empresa de fundo de quintal que lida com papéis de baixo valor, que não estão na bolsa de valores.



É lá que o personagem jovem e moderno à moda antiga tem a ideia de montar uma empresa focada neste tipo de negócio, cujas vendas são de valores mais baixos mas, em compensação, o retorno para o corretor é bem mais vantajoso. Ao lado de Donnie (Jonah Hill) e outros amigos dos velhos tempos, ele cria a Stratton Oakmont, uma empresa que faz com que todos enriqueçam rapidamente e, também, levem uma vida dedicada ao prazer.

A grande verdade é que essas cenas de “prazer”, com atores desnudos, dinheiro sendo gasto como areia no deserto, luxúria, drogas e piadas desenfreadas da vida contemporânea feitas por Belfort e sua trupe, não ofendem o espectador, de tão cativantes e espontâneas que conseguem ser. 



Podemos afirmar com toda certeza que Leonardo DiCaprio nasceu para atuar neste tipo de comédia, fazendo no longa, uma dupla impecável com Jonah Hill, proporcionando um encontro de dois oriundos das últimas duas gerações de grandes atores norte-americanos.

Além das caras e bocas e a grande capacidade de narrativa, o que mais impressiona na atuação de DiCaprio são os discursos motivacionais para a empresa, com jeito de pastor evangélico e uma paixão excessiva impressionante, ele convence inclusive o espectador, que obviamente reconhece a farsa.

Um elenco invejável, que ainda conta com a curta e hilária participação de Matthew McConaughey e Margot Robbie em uma atuação maravilhosa como a esposa de Jordan.

O Lobo de Wall Street, apesar de ter três horas, é tranquilo, engraçado, criativo e cativante de assistir. Isso se você não for um puritano e politicamente-correto que se incomoda com cenas de drogas e prostitutas.